segunda-feira, 3 de maio de 2010

Cinquenta e Seis

Relembro sim, todos os momentos que marcaram a fase da descoberta, do desalinho que em turbilhão inundava as nossas vidas. Ainda sinto o cheiro das histórias que bordaram a adolescência revestida de risos extemporâneos e de frases desconexas , de palavras cruzadas, de olhares de soslaio que queriam dizer tudo e que eram ao mesmo tempo nada, apenas a expressão da felicidade ou da lágrima que de vez quando rolava, que molhava a face de quem tudo esperava de uma vida eterna e feliz. E os sonhos iam acumulando as experiências que nos envolviam a alma, que nos preenchiam as lacunas deixadas pelos tempos mortos em que pensávamos ter o mundo nas mãos, em que dominávamos a vida como quem rebola na relva fresca, com a inocência de quem sente tudo pela primeira e única vez, porque a primeira nunca se esquece e nunca outra se sente de igual forma.

Há momentos no presente que trazem à lembrança aquilo que no fundo nunca esquecemos, que está sempre guardado na memória de quem viveu intensamente o que tinha que ser vivido, que gritou ao mundo a vida, que celebrou com todos os sonhos a felicidade de saber e saborear o que a terra tem para nos oferecer, o que os amigos têm para nos dar, o que temos nós para dar aos outros.

Não tenho sempre palavras que possam descrever o turbilhão que sinto, esta mixagem de sentidos que sempre me enaltecem e me fazem ser feliz pela vida que levei, pelas pessoas que amei, que ensinei, que escutei...por tudo o que intensamente sempre vivi e que por isso recordo sempre com amor... Passaram já tantas pessoas por mim, pelas minhas lembranças, pela minha memória....houve quem ficasse, houve quem partisse...houve quem partisse para nunca mais voltar. Na verdade não sinto a sua falta mas por vezes bate uma saudade, um nó na garganta por saber que a sua passagem por este mundo já se foi, que a sua tarefa se cumpriu ainda que não saibamos ou tão simplesmente não queiramos perceber qual foi. Julgámos e ainda julgamos que havia tanto caminho por percorrer, mesmo que esse caminho fosse distinto do nosso... e ainda que não sinta a sua falta, dou por mim, de vez em qaundo a escutar a sua voz, a ouvir o seu riso, as suas palavras, os seus devaneios, e irrompo em choro mudo, calado, daquele que não se escuta e que apenas faz doer o coração. É o expurgar do que guardo só para mim, de vez em quando também precisamos de fazê-lo.

E depois, limpamos as lágrimas, encolhemos o soluço e continuamos em frente, porque nós ainda cá estamos, ainda percorremos este caminho, ainda temos a esperança de o ver continuar. Temos a obrigação de ser felizes, por nós e por todos aqueles que amámos e que nos amaram que de que uma forma ou de outra partiram sem perceber porquê!