Não me apetece falar, não me apetece rir nem chorar, nem viver este momento que me controla o desejo inflamado de algo mais. Não quero segregar os sentimentos, mas também não os posso evitar. Não há reciprocidade possível no bater do meu coração nem no correr do meu sangue em veias desfeitas pela intemporalidade daquilo que não pedi para sentir.
Avanço, todos os dias, absorta na inércia daquilo que não desejei. Agradeço, as oportunidades, ainda que de certa forma envenenadas, que me chegam a conta gotas, apesar das inúmeras batalhas travadas noutro sentido. Abandonei todos os meus sonhos, sinto que cada dia que passa se afastam mais de mim, daquilo que sou, e aos poucos, nesta melancólica mutação reajo ainda com alguma foça contra o que não quero, o que não desejo. Revolto-me, ainda que de nada sirva, porque simplesmente não sou ouvida. Sofro, todos os dias, de formas diferentes, mas sofro. Não me chameis ignóbil nem maníaca nem paranóica nem neurótica. Não o sou. Não o entendo. Não o quero.
Não me rotuleis daquilo que apenas me caracteriza na insatisfação com todos os dias me levanto e abro os olhos para o mundo que sempre conheci mas que agora se pinta e veste de cores diferentes, daquelas que me ferem o olhar e me causam náuseas profundas que pelos vistos me impedem de partilhar. Parece que não tenho direito a expressar-me, a falar, a revelar o turbilhão de emoções e dúvidas e incertezas que vão aos poucos consumindo todos os meus bons sentimentos e tudo aquilo que sempre fui…durante uma vida, aquela que tenho, a que conheço, aquela que faz de mim mulher, adolescente, criança.
Viajo todos os dias para além da minha imaginação, mas depois, tudo se desfaz quais castelos de algodão que nunca chegam a ser realidade. Não sei mais sequer que realidade é essa, voltou-me costas há muito, e quando pensei que finalmente estava de volta, uma intemperi fez com que novamente levasse para bem longe tudo o que projectei. Não tenho direitos, tenho deveres, para comigo, para com os outros, mas eu, presa em mim, dentro do que nunca fui, luto sempre sozinha, dou sempre tudo o que tenho e o que não tenho, nunca à espera de retorno, porque na verdade, quando achei que finalmente esse retorno viria até mim, afastou-se, não chegou, ficou a meio caminho porque há sempre algo que é mais forte do que eu, e eu, fico sempre para o fim…e quando chega esse fim, já nada sobra para me consolar.