Nos gestos antes enternecedores de alguém que nos premeia pelo bom comportamento das fábulas imaginárias que outrora compusemos ao som de sustenidos desconexos, sentimos pulsar nas mãos o dom da palavra inacabada, das chamas que a pouco consomem madeira que crepita numa lareira que deixou há muito de existir. A tosse, convulsa, avulsa a intemperi de sentimentos que sempre partilhámos, na doutrina do que é envelhecer conjuntamente com os pensamentos que nunca dantes conhecemos, vê-se nos gestos mais simples e na capacidade mais abrupta. Se contasse o que sei, ou tão simplesmente o que julguei um dia saber, decerto me arrependeria, pela mancha deixada no papel abandonado por mim, num caderno de linhas tortas, algures por aí. Se desse ao vento e à sorte as palavras com que descrevo esta sensação da mais pura loucura, enterraria o meu passado complexo na cripta do nunca, onde jamais pudesse voltar a entrar, nem para ver, nem para sentir, do que me quero para sempre separar.
Tantos os sorrisos que trago guardados, e as mais puras sensações que me perseguem em lugares e em tempos que em nada se parecem, mas que dentro de mim perdoam o gesto inacabado na tua face, e no rodeio que me encanta nas palavras surdas que um dia escutei da tua boca. No ventre nunca nada trouxe, na mão nunca nada agarrei, mas em meus olhos, o mundo, sempre solto e inacabado como tem que ser a vida de qualquer um que por cá anda. Dolente, dormente, a alma inacabada e em construção permanente, perto do que é a realidade, do que foram os sonhos de menino, que se transforma aos poucos em recordações, essas que não deixam nunca nosso cérebro descansar. Porque tudo gira em círculos que nunca terminam e que nunca querem terminar. À cabeça, apenas pensamentos vulgares, que me atordoam a mente e me fazem testar o medo e a solidão, que nunca sinto mas que sei existir. Nas paredes do quarto penduro os quadros e as pinturas que me fazem voltar ao inacabado, ao que nunca soube morto, para me lembrar sempre que a vida continua e que os desencontros que me deixam, por momentos, atordoada, são o oxigénio que preciso para respirar, são os momentos que me fazem prosseguir e acreditar que um dia a felicidade terá algo para me dizer. Nunca aspirei ao conhecimento total nem ao simbolismo místico, aspirei sempre à bondade do espírito que em mim reside e que me compara sempre numa sociedade tradicional que reprova sempre os meu comportamentos amis atípicos, descabidos, fora de tempo até. Mas sobrevivo sempre, até ao último instante, nem que seja com uma lágrima escondida, que brota por vezes de meus olhos crispados de dor e desilusão. Numa aventura que não conheço, continuo a navegar, porque a história de cada um é sempre o reflexo dos vários momentos que passamos com os outros, e porquanto, os sonhos ficam sempre inacabados, enquanto a vida nos der as coordenadas para que a continuemos a conhecer, a viver.