quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Três

Quanto custam os devaneiros de uma alma? Para esta questão, resposta não tenho, porém, sei que os desejos mais intensos passam pelo filtro da mente, umas vezes mais, outras menos, porque nem sempre os nossos filtros dão as respostas correctas às nossas perguntas. Na expectativa constante das falácias do que nos acontece no dia a dia que vivemos desenfreadamente, sempre como se do último dia se tratasse, não podemos ignorar todas as dúvidas que se nos apresentam como existenciais. Nos dias mais longos, custam as horas a passar, doem os ponteiros nos minutos esquivos presos pelas palmas da mão, na realidade não encaramos nunca que estes minutos e horas são a nossa essência, a essência daquilo que nos persegue e nos faz ficar mais fortes.

Quanto custa a nossa felicidade? A infelicidade alheia? O pudor daquilo que não se vê mas que intimamente se sente? O despudor de fazer aquilo que não se deve mas que nos torna seres humanos completos e felizes? As perguntas que fazemos repetidamente até encontramos uma resposta que minimamente nos convença, veste pelo caminho a armadura da defesa, das armas com que nos defendemos dos outros, dos que não compreendem o que se passa em cada alma, em cada vírgula que compõe o rendilhado de palavras que formam a nossa vida e escrevem a nossa história.
A nossa história...gostaria de reescrever alguns dos pontos que compõem a minha história, não por demagogia, não por arrependimento, apenas para traçar um caminho diferente e desenhar outros caminhos que antes não me permiti percorrer, por medo, por receio, por insegurança, por todas as razões e mais algumas que possam justificar o facto do presente não ser como um futuro que imaginei colorido, em tons de amarelo e laranja.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Dois

Nos gestos antes enternecedores de alguém que nos premeia pelo bom comportamento das fábulas imaginárias que outrora compusemos ao som de sustenidos desconexos, sentimos pulsar nas mãos o dom da palavra inacabada, das chamas que a pouco consomem madeira que crepita numa lareira que deixou há muito de existir. A tosse, convulsa, avulsa a intemperi de sentimentos que sempre partilhámos, na doutrina do que é envelhecer conjuntamente com os pensamentos que nunca dantes conhecemos, vê-se nos gestos mais simples e na capacidade mais abrupta. Se contasse o que sei, ou tão simplesmente o que julguei um dia saber, decerto me arrependeria, pela mancha deixada no papel abandonado por mim, num caderno de linhas tortas, algures por aí. Se desse ao vento e à sorte as palavras com que descrevo esta sensação da mais pura loucura, enterraria o meu passado complexo na cripta do nunca, onde jamais pudesse voltar a entrar, nem para ver, nem para sentir, do que me quero para sempre separar.

Tantos os sorrisos que trago guardados, e as mais puras sensações que me perseguem em lugares e em tempos que em nada se parecem, mas que dentro de mim perdoam o gesto inacabado na tua face, e no rodeio que me encanta nas palavras surdas que um dia escutei da tua boca. No ventre nunca nada trouxe, na mão nunca nada agarrei, mas em meus olhos, o mundo, sempre solto e inacabado como tem que ser a vida de qualquer um que por cá anda. Dolente, dormente, a alma inacabada e em construção permanente, perto do que é a realidade, do que foram os sonhos de menino, que se transforma aos poucos em recordações, essas que não deixam nunca nosso cérebro descansar. Porque tudo gira em círculos que nunca terminam e que nunca querem terminar. À cabeça, apenas pensamentos vulgares, que me atordoam a mente e me fazem testar o medo e a solidão, que nunca sinto mas que sei existir. Nas paredes do quarto penduro os quadros e as pinturas que me fazem voltar ao inacabado, ao que nunca soube morto, para me lembrar sempre que a vida continua e que os desencontros que me deixam, por momentos, atordoada, são o oxigénio que preciso para respirar, são os momentos que me fazem prosseguir e acreditar que um dia a felicidade terá algo para me dizer. Nunca aspirei ao conhecimento total nem ao simbolismo místico, aspirei sempre à bondade do espírito que em mim reside e que me compara sempre numa sociedade tradicional que reprova sempre os meu comportamentos amis atípicos, descabidos, fora de tempo até. Mas sobrevivo sempre, até ao último instante, nem que seja com uma lágrima escondida, que brota por vezes de meus olhos crispados de dor e desilusão. Numa aventura que não conheço, continuo a navegar, porque a história de cada um é sempre o reflexo dos vários momentos que passamos com os outros, e porquanto, os sonhos ficam sempre inacabados, enquanto a vida nos der as coordenadas para que a continuemos a conhecer, a viver.

Um

Nem sempre os ventos correm de forma a poderem ajudar o barco que navega livre no mar a bom porto chegar. Os raios de sol que doiram os cabelos de quem passa aquece a alma e coração das palavras que por bocas anónimas saem.

A tarefa mais complexa é descomplexadamente penetrar num mundo inantingível e inaudível até datas desconhecidas. O óbvio nem sempre é o melhor, o mais interessante, porque por vezes o rebuscado se compadece mais com as necessidades prementes do ser humano. Nem sempre as mentes estão despertas para o sopro da novidade dos sons da natureza. Em última análise, concreta e abstracta, todos buscamos a paz interior, baseada no que conhecemos e no que não conhecemos. Buscamos algum sentido no que dizem as cartas que nos ficam na caixa do correio, nos panfletos que encontramos nos vidros, sujos e baços, da frente de carros largados ao acaso pelos passeios da cidade que sempre testemunha os passos que damos.