domingo, 27 de junho de 2010

Cinquenta e Oito

Escutamos as palavras sem nada que as possam explicar. Os sons que pouco a pouco penetram na nossa alma, desenham com raiados de luz, sentimentos incontornáveis que simplesmente não conseguimos definir. Foi assim que te conheci. Num entardecer, perdido entre a luz solar que ia desaparecendo atrás das nuvens, entre o raiar de uma lua que chegou prematura. Não havia expectativas, havia apenas um sinal que resolvi não querer interpretar. Segui apenas a emoção que se assemelhava com a vontade inequívoca que conhecer a face atrás da voz que me fazia perder os sentidos de cada vez que susurrava aos meus ouvidos. Nunca nada é igual a si mesmo na perturbação dos sonhos, na perturbação daquilo que se espera, daquilo que não se imagina ou que tão simplesmente se pensou que fosse. Surpresas atípicas, rápidas. Químicas inexplicávieis que me seguem incontornavalmente sempre que tento estabelecer algo de mais objectivo.

Sou rapidamente atordada nos meus sentidos pelas sensações mais escassas, mais fortes, mais basicamente carnais, e aceito sem contestação algo que sempre me deixou apreensiva. Não há explicações lógicas para o que sentimos nem para o que vemos quando simplesmente algo nos turva o olhar, mas entementes, emitimos gemidos de dissabores, daqueles que não conseguimos controlar, que nos sugam a energia e nos carregam a mente com dúvidas tão existênciais que até podemos duvidar da verdade dos factos.

Tudo nos parece um tanto ou quanto inócuo, fugaz, rápido, mas também nos parece profundo, assim, do nada, sem mais nem porquê, do que não sabemos quando menos esperamos...depois de caminhadas longas e esquecidas as dores das curvas do caminho que continuamos a percorrer com toda a vida que carregamos dentro de nós.
Não é idade que nos transforma, são as vivências, não são as vivências que nos delimitam, são as sensações que acabamos por sentir...mais cedo, mais tarde, pela razão ou pela emoção, damos passos complexos sem aparente nexo, sem regra básica de escrita, de redacção. São sofríveis, pomos sempre a razão à frente do coração, na tentativa vã de nos protergermos e quando de repente os acontecimentos se perdem do racional nos atropelam a alma, ou tão simplesmente pelo que zelamos, perdemos o rumo ou achamos que tudo tem que ter um propósito. E este propósito carrega-nos a alma quando percebemos que mais uma tarefa se nos apresenta pela frente, com muito ou pouco tempo, não interessa! Isso cansa-nos o físico cansa-nos a alma, ivade-nos no refúgio onde nos gostaríamos de estar protegidos, naquele onde nos reservamos por vezes do resto do mundo mas que nestas alturas simplesmente de nada nos é capaz de salvar.

E as vozes que ouvimos dentro de nós, os anjos e demónios que nos desafiam qual força da gravidade, moldam as nossas acções...lembram-nos a nossa infância quando tínhamos que escolher a brincadeira seguinte...aqui passas-se o mesmo, só temos que escolher qual o caminho a seguir, e isso, na facilidade que tem, determina claramente os passos em vão que podemos dar ou os contrutivos que podemos simplesmente nunca vir a caminhar.

E os sonhos fazem-se disso, fazem-se das coisas inacabadas que um dia tentámos, fazem-se daquilo que nunca efectivámos, por medo, por preconceito ou simplesmente porque a oportunidade fugiu...e assim, num ápice temos novamente o mundo nas mãos sem saber o que fazer dele...

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Cinquenta e Sete

Dedilhando as teclas, ecoam tantas coisas diferentes na minha cabeça...ecoa a vontade de chamar a verdade até mim, de deixar de lado todas as ilusões que têm composto os estados de alma em que me encontro todos os dias em que simplesmente não me reconheço. São poucos, têm sido absolutamente poucos os dias, as horas em que nao sei quem sou, o que faço ou para onde me dirijo. Sinto a minha vida constantemente atordoada com os altos e baixos do que me torna em vida prolongada, no que me torna feliz, nos momentos que me enchem o coração de tal energia que não consigo explicar, nem palavras há que o reflictam. Posso escrever dez, cem, mil palavras, mas nem todas juntas poderiam realmente dar a entender o que vai no meu coração quando rasgo um sorriso e o sinto com toda a força dentro de mim. É assim quando encontro as almas que são tão gémeas do meu ser quanto dois embriões na barriga de sua mãe, é tanto assim como quando estamos enroscados no abraço de alguém que desinteressadamente gosta de nós, assim, sem mais nada, que apenas aprecia aquilo que somos, como pessoa, como individuo, como único.

Foi assim que me senti quando encontro ao fim de não sei quantos anos o abraço de alguém que um dia foi irmão, amigo, companheiro por cinco, por dez, por mais anos. E quando, com o desinteresse de que falo me abraça, sinto que somos mesmo assim, amigos de longa data, para o bom e para o menos bom, porque os verdadeiros amigos e os sentimentos que nos unem não se esquecem, não se esqucem porque ficam sempre marcas. Somos iguais, somos o mesmo, somos a força de ser aquilo que sempre fomos, o que acreditamos, somos sempre o que achamos que devemos ser. Eu sou assim, sou aquilo em que acredito, e cada vez mais sinto necessidade de o ser, sem máscaras, sem nada que me encubra. Sou assim e pronto, e sei que aqueles que me rodeiam, o fazem por gostarem de mim assim, e isso, e isso é que é realmente importante.

Voltamos ao que somos, voltamos sempre à nossa essência, mais cedo, um pouco mais tarde, voltamos sempre lá para recordar, aos recônditos cantos do que nos fez homem e mulher, para beber na fonte a energia que nos tonifica a alma e nos torna mais fortes, mais donos de nós mesmos, loucos, livres, fiéis às nossas convicções, inabaláveis na maneira de ser. Somos assim, fortes e belos, como tudo o que é verdadeiro. E acreditando nesta verdade, sempre e só nesta e nunca em nenhuma outra, devemos perseguir o nosso futuro.

Sou aquilo em que acredito porque de outra maneira não saberia viver.