quarta-feira, 16 de abril de 2008

Doze

Acordei estremunhada e meio de contra vontade, mas assim que pus o pé fora de portas, ai que bem que me soube a fresca da manhã, o chilreio dos pássaros, a brisa suave que me refrescava a face, ai que bem que me soube sair de casa e respirar o ainda não poluído ar.

Deveria mudar esta melancolia matinal que só acorda sobre a tarde e que vê os dias correrem tão depressa que não consegue controlar a tristeza de estar a perde-los. Voltava atrás só para respirar a manhã dos dias que perdi em leito deitada, dormente em sonhos não profundos, ou em vivências idiotas da calma aparente que suporto, acordaria todos os dias para refrescar a mente em passeios demorados pelas fachadas de uma vida que se quer repleta de emoções e de vivências divertidas que ando a perder enquanto durmo, refastelada em ócio idiota e improdutivo.

Falta-me a vontade, falta-me a motivação...mas terei que encontrá-la em mim mesma, nas coisas banais que se podem fazer mal se abrem as cortinas de um quarto por horas adormecido, levantar com energia suficiente para deixar a inércia em que se vive actualmente embrulhada em pensamentos de alturas em que apressadamente se saia de casa para um destino há tempo anunciado...e que bom que era, que saudades tenho desse tempo, que rezo todos os dias para que volte.

E amanhã é sempre um novo dia, é sempre uma nova ameaça, mas sobretudo é sempre um novo desafio que teimo todos os dias em vencer, porque nunca nos podemos fazer valer das fraquezas que a alma nos assola, vale-nos sim o ímpeto de seguir em frente e ir mais além, a cada conquista, a cada vitória e o mundo fica diferente.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Onze

Esventrada sinto a alma, longe dos tempos em que me conseguia de pé suster, lembrada das mágoas que por mim passaram e que não consegui reter mais do que dois segundos, porque todos os momentos bons me fizeram sorrir, mais do que alguma vez aconteceu.
Neste momento é isso mesmo que sinto, momentos bons a percorrerem-me os pensamentos, mas dor sentida no fundo do coração que sabe não poder ser sentido real, porque vivo sempre de migalhas de sorte e que apenas de forma esporádica se atravessa na minha frente. e é por essa razão que vivo sozinha, presa a mim mesma, longe dos recados externos que um dia desejei serem meus mas nunca consegui que fossem. Todas as pressões eu mesma as sinto de cada dia que passo nesta solidão imensa que me ataca o peito e que apenas com migalhas consigo minimizar. Não entendo esta razão, não entendo porque raio tudo acontece nesta idiota situação de impotência promiscua, cuja razão não reconheço existir. Não posso nem devo, nem suportarei viver de migalhas dadas por quem um dia me amou e que eu mesma um dia amei também com tanta intensidade como se o mundo acabasse nesse mesmo dia.
Na verdade é mesmo isso que sinto, a minha alma esventrada por algo que um dia foi meu complemento, que um dia foi totalmente meu e que por razão nenhuma deixou de ser.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Dez

Não há sons que mais me entorpeçam o olhar do que as palavras que provém da tua boca. Não na verdade, sons mais desejáveis do que os que ecoa na memória que trago dos tempos em que rir e dançar era tudo o que de bom o mundo me dava. Nas vestes escolhidas a dedo para cada ocasião e nos cremes passados com cuidado no corpo suave, que amaciava a cada massagem de sensualidade, vibrava o desejo de querer amanhã mais depressa.
Na vida real não podemos submeter-nos ao que todos julgam correcto, não podemos submeter-nos a regimes ditatoriais eloquentes de sentimentos que seriam mesquinhos, não fossem eles debruados a amor, paixão e desejo. Estes sentimentos sobram nas carteiras dos pedintes de rua, que querem um olhar só para si, sem cobranças nem mentiras e frases inacabadas, incertezas escondidas por palavras mal escolhidas para dizer, nas ocasiões mais estranhas.

Que estranho, por vezes o nosso caminho, as vibrações que sentimos em corpo inerte, ou quente de vida. Tão estranha esta sensação de procura incessante, de sentido de oportunidade que nada tem que ver com o politicamente correcto e desejável. Minto, sim, minto, minto por pudor da verdade, por pudor dos julgamentos inadequados de quem não conhece o que sinto nem o que gostaria de viver, porém, nesta mentira me afogo, sempre que passo a barreira do acertado, do que eu própria racionalmente confesso ser acertado.

Sem certezas nenhumas a cada passo que dou, desacertado com o ritmo em que se quer viver a vida extrema de emoções que não se conseguem nunca explicar, nem aos outros, nem a nós mesmos, em atitudes que são irreflectidas...por capricho, por saudade, por solidão, por desejo...são momentos que não podem nunca ser apontados me calendário algum, nem em agenda diária, porque não são planeados nem acertados. Vivemos na incumbência geral de fazer e ser o que todos querem que sejamos, independentemente de nossa vontade, porque tudo é suposto ser socialmente correcto...e depois vem o arrependimento do que se não fez, do que se deveria ter feito, e finalmente do que se fez e nunca deveria ter acontecido, porque não podemos levar uma vida inteira na ilusão de que os nossos passos são correctos, quando na verdade o não são.

E perco-me nestes momentos ilusórios de realidade obscena que eu mesma crio para mim, que me alimentam outros momentos, esses reais de vida solitária e de barcos perdidos em tempestade no mar.

Sem rumo me sinto, sem barca no mar estou, por vezes sem norte, mesmo assim a remar contra a maré que não deixa nunca de me atirar contra a corrente.