quarta-feira, 9 de abril de 2008

Dez

Não há sons que mais me entorpeçam o olhar do que as palavras que provém da tua boca. Não na verdade, sons mais desejáveis do que os que ecoa na memória que trago dos tempos em que rir e dançar era tudo o que de bom o mundo me dava. Nas vestes escolhidas a dedo para cada ocasião e nos cremes passados com cuidado no corpo suave, que amaciava a cada massagem de sensualidade, vibrava o desejo de querer amanhã mais depressa.
Na vida real não podemos submeter-nos ao que todos julgam correcto, não podemos submeter-nos a regimes ditatoriais eloquentes de sentimentos que seriam mesquinhos, não fossem eles debruados a amor, paixão e desejo. Estes sentimentos sobram nas carteiras dos pedintes de rua, que querem um olhar só para si, sem cobranças nem mentiras e frases inacabadas, incertezas escondidas por palavras mal escolhidas para dizer, nas ocasiões mais estranhas.

Que estranho, por vezes o nosso caminho, as vibrações que sentimos em corpo inerte, ou quente de vida. Tão estranha esta sensação de procura incessante, de sentido de oportunidade que nada tem que ver com o politicamente correcto e desejável. Minto, sim, minto, minto por pudor da verdade, por pudor dos julgamentos inadequados de quem não conhece o que sinto nem o que gostaria de viver, porém, nesta mentira me afogo, sempre que passo a barreira do acertado, do que eu própria racionalmente confesso ser acertado.

Sem certezas nenhumas a cada passo que dou, desacertado com o ritmo em que se quer viver a vida extrema de emoções que não se conseguem nunca explicar, nem aos outros, nem a nós mesmos, em atitudes que são irreflectidas...por capricho, por saudade, por solidão, por desejo...são momentos que não podem nunca ser apontados me calendário algum, nem em agenda diária, porque não são planeados nem acertados. Vivemos na incumbência geral de fazer e ser o que todos querem que sejamos, independentemente de nossa vontade, porque tudo é suposto ser socialmente correcto...e depois vem o arrependimento do que se não fez, do que se deveria ter feito, e finalmente do que se fez e nunca deveria ter acontecido, porque não podemos levar uma vida inteira na ilusão de que os nossos passos são correctos, quando na verdade o não são.

E perco-me nestes momentos ilusórios de realidade obscena que eu mesma crio para mim, que me alimentam outros momentos, esses reais de vida solitária e de barcos perdidos em tempestade no mar.

Sem rumo me sinto, sem barca no mar estou, por vezes sem norte, mesmo assim a remar contra a maré que não deixa nunca de me atirar contra a corrente.

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