terça-feira, 22 de setembro de 2009

Trinta e Nove

Em sonhos banais encontro a frequência daquilo que me fascina todos os dias que acordo e me levanto do leito que sinto por vezes ser maternal. Em toda a solicitude das atitudes insólitas que lembro de por vezes protagonizar, nunca consigo encontrar a verdadeira razão da raíz do medo e da culpa que sinto pela água que não bebi, pelo mar em que não nadei, pelo ar que não respirei.

Em todas estas indecisões nunca escuto o uivo do que me aconchega o coração nas horas em que me sinto perdida, nunca me chegam aos ouvidos as sonoridades doces que certa vez ouvi de ti, em rituais que me enebriaram a alma, o coração, e me fizeram perceber que há nuvens cor de rosa, tal e qual o algodão doce da feira, que se derrete na boca, como os teus beijos um dia se derreteram... Volvidos tantos anos, continuo a recordar essa imagem, com doçura, é verdade, com o carinho de quem amou uma vez, ainda criança, quem um dia lhe mostrou o que era um beijo.

Mas o beijo de outrora não é igual ao de hoje, em nada se parece a não ser na forma. O beijo de hoje não tem emoção, não tem o nervoso miudinho de quem espera ansiosamnete ser tocada de forma inesperada, de quem coloca a mão na mão, com risos abafados e palavras meias ditas, em surdina...na surdina que tu e eu conhecíamos de cor. Agora as sensações são ocas, despojadas de tudo o que antes nos regia, e as emoções são meramente físicas, mecânicas, como sabes...e recostados no sofá de cor indefinida, soltamos alguns risos, uns mais forçados do que outros e dizemos adeus, com palavras curtas, na pouca intimidade emocional que nos liga.

Na verdade, não percebo bem porque é que isto acontece....

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Trinta e Oito

Nem sempre vemos com a clareza necessária o óptimo da vida, julgando por vezes, com demasiada precipitação as tonalidades com que pintamos o céu que nos cobre o corpo, e é certo, também a alma. Todas as vezes em que a mente verseia sobre o que nos perturba, também nos mostra caminhos a seguir, outros, diferentes dos temos por exactos, ou dos que nos parecem mais óbvios.

Demoro-me tantas vezes na análise da diferença, na análise do que é essa diferença, mas sobretudo, na análise daquilo que me torna a mim, diferente. Ainda hoje discutia com alguém o que é essa diferença, porque somos, eu e ele, diferentes dos demais...na verdade, somos todos diferentes uns dos outros, mas...há de facto algo que nos torna únicos e especiais não há? Há pequenos pormenores que nos fazem sentir que somos mesmo casos raros de excepcionalidade, e certo é que nos debatemos todos os dias da nossa vida para provar essa mesma excepcionalidade, para mostar ao mundo que temos algo de diferente...mas... e quando não conseguimos? Quando esta mensagem simplesmente não passa e ficamos exactamente com a mesma posição que sempre tivémos: a de igualdade, aquela que nos coloca exactamente no mesmo lugar que todos os outros seres?

Nesta individualidade mundana, óbvia para nós, e às vezes imperceptível para os demais, escoamos todas as nossas tentações, escoamos tudo o que nos lisonjeia de nós para nós, de nós para os outros. Sinto muitas vezes essa lisonja como o escape dos dias difíceis, como o oásis das horas mortas em que me compadeço com a irritabilidade do que é ser invisível aos olhos de outros. Vivo na ânsia do reconhecimento pela diferença, mas esse reconhecimento tarda, tarda nas horas, nos dias, nos momentos em que pareceria óbvio que iria acontecer, por isso, e sem mais derrotas conscientes, aguardo, continuo a aguardar pelo revivalismo que sei irá acontecer num futuro próximo.

Porque acredito ainda no especial entendimento das mentes humanas sei que a diferença sobressai sempre entre as demais trivialidades.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Trinta e Sete

Vou aprendendo a dizer Não, na verdade vou aprendendo a sentir esse não. Acho que quem não o sente enquanto seu, tem um árduo trabalho em aceitá-lo, em pronunciá-lo...primeiro porque não sente de facto e depois porque simplesmente não o sabe usar. Porque parece mal, porque nos permite ter momentos de egoísmo, esse egoísmo que nem sempre nos permitimos ter, porque nos afasta dos outros e das situações que simplesmente nada nos dizem. Estou aprendendo a dizer Não, todos os dias em que recuso algo, em que repito essa palavra para dentro de mim, como se designasse um lema a seguir...e às vezes é tão bom, sabe tão bem sentir essa negação da vontade, a negação do querer, a negação do momento social que simplesmente não apetece. Digo aprendendo porque é mesmo isso, hoje um bocado, amanhã mais um pouco; hoje uma experiência, amanhã outra, e assim vou construindo este caminho atabalhoado de nãos, em que mostro aos outros que eu tanbém tenho vontades de não fazer, de não falar, de não dizer...e que isso não é mau, que isso também faz parte de nós, que não temos sempre que ser a tábua de salvação de outros, e que por vezes este Não, é apenas e só a nossa própria tábua de salvação, aquela que nos liberta do cansaço de dizer o que não se quer e de também sentir o que nada nos diz.

Para mim sempre foi dificil, estou porém a trabalhar nisso, a moldar a minha personalidade para poder dizer Não. Sempre aceitei esta postura dos demais, muitas vezes sem questionar, mas sempre exigi de mim um comportamento muito diferente. Sempre pensei que nunca devia dizer Não, que deveria sempre fazer o melhor e dar o melhor de mim para que esse não simplesmente passase despercebido, mas descobri que me sufocava esta exigência, que eu posso e devo fazer apenas e só o que quero, o que me faz feliz, o que me deixa contente, pondo assim de lado o que simplesmente não me apetece, e que por isso não vem mal ao mundo, que os outros têm que compreender que eu sou tão feita de carne e osso como eles, e que também tenho vontades e sonhos e tudo o que os outros têm. E que no fundo também eu preciso de respirar o ar que me rodeia, nesta imensidão de partículas átonas que me ferem por vezes a vista e me atordoam a alma. E na gestão tão minimalista de palavras, entre um sim e um não, baseio a minha vida e a minha esperança de encontrar sempre o que me fará trocar um Não por um Sim, um Sim consciente e feliz, daqueles que nos rasga o coração de alegria e nos faz sentir a pessoa mais importante do mundo, que nos suga a energia do corpo mas também a da alma e nos dá o paraíso em troca de uma simples palavra: SIM!

Porque o Não e o Sim devem sempre ser usados com toda a verdade e consciência, luto todos os dias para fazer o bom uso das palavras que determinam aquilo que na verdade sou...hoje e sempre!

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Trinta e Seis

Percorro as linhas do teu sorriso com a ânsia de te beijar, de tocar-te na face como há tanto tempo me apetece fazer...pegar-te na mão como se fosse a primeira vez que nos encontramos, assim, perdidos em conversas banais, sobre tudo e sobre nada, sobre o trivial das nossas vidas, das vidas dos outros, das nossas vontades, das vontades dos outros...

Na verdade não sei como dizer-te isto que sinto, ou que pareço sentir, assim, do nada, apenas porque sinto. Não há intenções estranhas, não há diálogos incómodos, não há insinuações extemporâneas, daquelas que parecem não ter sentido, nem hoje nem nunca. Não, há na verdade explicação para um algo que não sei explicar, que não é o que conheço, que não é de todo o que sempre vivi.
Não é forte, é ameno, com resistências, com incertezas, com tudo o que desconheço e na verdade não domino. Não sei como agir, não sei sequer se quero agir, se tu queres essa acção... Mas não te vejo estender-me a mão que quero agarrar, não te sinto a mostrar-me a face que gostaria de tocar, muito menos te sinto com vontade de ceder ao beijo que gostaria de te dar.

Não vejo o mundo como branco e preto, vejo-o enquanto cinzento, naquela cor obscura que tudo mostra e nada revela, que nos coloca na dúvida do que queremos, do que somos, do que fomos, do que vivemos, do que queremos...nos coloca na dúvida sobre o caminho a seguir, sobre o que não fazer e o que querer....e é nestas alturas que penso que para a sorte não há palavras a dizer, há designios que não obedecem a explicações lógicas e reais, que não se contentam com a simplicidade de um sim e a brusquidão de um não... não sei construir mais do que isto, mais do que o bulício dos meus sentimentos em turbilhão, às voltas na minha cabeça, entorpecidos pelo que não sei, pelo que me perturba mas não devia, pelo que me dá alento e ao mesmo tempo me coloca toda a dúvida...
Não sei fazer melhor, nem pior, só sei fazer assim, só sei sentir assim, umas vezes intensamente outras mais devagar...sei sentir sem vontade, sei sentir com desejo, com vergonha, com a sensação de que estou completamente errada, com a certeza de que estou certa...sei sentir isto tudo ao mesmo tempo, e de cada vez que tento sair deste turbilhão de emoções com esperança e certeza não consigo, vou-me abaixo com a mesma força com que um dia me reergui de tudo o que me sufocava a vontade de viver.

E depois vêm as perguntas, as incertezas, vêm as crises de existência, aquelas que só sentimos quando na verdade temos consciência do que somos, mas sobretudo daquilo que poderíamos ser...ou ter sido...e sem respostas a estas perguntas vamos passando as etapas da prova que todos os dias se nos coloca à frente sempre que abrimos os olhos e vemos o nosso unchanged world a tomar conta de nós, dos nossos sonhos, das nossas vontades...e se vai instalando como a única realidade que conhecemos.

Paguei sempre o preço da minha bondade, um preço sempre mais alto do que na verdade podia pagar enão conigo ainda ver o retorno desse pagamento...