domingo, 31 de janeiro de 2010

Cinquenta e Dois

Deito a cabeça na almofada de cada vez que me apetece hibernar. Suspiro de cada vez que penso no que não senti, no que simplesmente não aconteceu, no que esperei demasiado tempo para viver. Não vieste ao meu encontro, os teus olhos deixaram de me seguir, de me acariciar o cabelo como em tempos sei que fizeste, e as tuas mãos deixaram de procurar as minhas pelo meio da multidão que sempre se acotovela entre um passo e outro. E às vezes terminam assim as histórias que sequer começam, termina o que alimenta o nosso imaginário durante algum tempo, que nos faz tantas vezes vibrar como se de facto a nossa estrutura emocional insanamente se abalasse ao mais pequeno sinal. E as interpretações destes sinais misturam-se, turvam-se em nós, e quando nada nos dizem finalmente, é tempo de seguir em frente, de passar a uma próxima etapa que não sabemos nem quando há-de começar e muito menos quando há-de acabar. Mas isso não interessa, não se reveste de significado para os nossos pensamentos que puramente filtram o que verdadeiramente nos preenche.

Soletramos tantas palavras, assim, letra a letra, mas tão poucas vezes sentimos o que realmente querem dizer. Atribuimos-lhes sentidos, sempre à luz do que vivemos, do que já foi a nossa experiência e nunca conseguimos perceber verdadeiramente o seu significado...o certo, o que descompromentidamente nos ensina e revela o poder do que é dito e nunca só da intenção com que o fazemos. É nesta dança de palavras que percebo o caminho que ainda falta precorrer, o que tenho ainda para conhecer, apreciar, meditar, construir...entro neste caminho, longo bem sei, com vontade e esperança de percorrê-lo com a acalmia que não me caracteriza. Sou ser humano, estou começado, ainda não acabado. Estou aberta, e sei que apta a todas as transformações que virão, quero recebê-las assim, de coração aberto, com a mesma anuência com que recebo o dia-a-dia que me compõe. E gosto desta composição, gosto de tudo o que é diferente, e aceito, sem indiferença tudo o que sei ser igual, mundano, tudo o que vejo repetidamente repetir-se, mas espero sempre, todos os dias e mais um, por todas as diferenças que prefiro, confesso, passem na minha vida.

É opcional esta maneira de sentir, mas eu sei que sempre optei por ele como o ar que respiro todos os dias, não apenas para ser diferente, mas porque aprendo sempre muito mais assim.

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