quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Sessenta

Sinto-me só, assim, somente sozinha no meio de todos os que me rodeiam…trocaram-me as voltas, trocaram o certo pelo incerto e desconhecido, não que isso me assuste porque outras batalhas já travei e delas saí vencedora, mas dói quando se sente que o injusto tomou conta do justo, o escuro tomou conta do claro e o amargo conta do doce.

As forças resvalam na ânsia do que não sei, na incerteza do que não conheço e adentro o que não me interessa…não sei lidar com isto, na verdade achei que era tudo muito mais fácil, que tudo era simples mas não é. Fiz-me de forte, coragem de leão, parafraseando alguém que canta estas e outras palavras sentidas e acertadamente sãs, mas isso não chega, não consola, não alimenta. A alma exposta, a nú, como nunca antes, talvez identicamente a uma ou outra ocasião mas nunca com este nível de incongruência…e aos poucos, sentimos o desmoronar do que vamos construindo, desaparece tudo…pode ser um novo ponto de partida, pode ser uma nova meta de chegada, mas na transversalidade do que gostaríamos de realizar, dizemos adeus aos cada vez mais irreais sonhos, aqueles que nos alimentaram a alma e a vida durante tanto tempo. Resignamo-nos sem saída ao que nos dão, ao que tão pouco desprendidamente nos dão, e aceitamos, de cabeça baixa, tentando não vergar perante a adversidade para no final de tudo isto, olhar para o espelho e ver a face de alguém que um dia sonhou o que nunca conseguiu e se conformou com o que nunca quis.

E assim se dissipam todos os fiapos do querer, feitos de algodão doce, aqueles que achamos sempre que mais cedo ou mais tarde se realizam…mas há sempre um dia em que vemos através do tempo, do real, e percebemos claramente que o nosso lugar não é nem nunca foi aquele pelo qual lutámos, aquele que sonhámos…o que nos mantinha o sangue a pulsar com a toda a intensidade…depois disso, depois fica apenas a amargura do que deveria ter sido e simplesmente nunca foi…

sábado, 20 de novembro de 2010

Cinquenta e Nove (parte II)

Fazes-me falta… assim, simplesmente sem mais coisa alguma, apenas falta de ti, das tuas mãos, do teu cheiro, da tua voz a interpelar-me a cada segundo, da tua certeza absoluta das coisas.

Gosto do brilho dos teus olhos quando me olhas fixamente e me deixas completamente despida de argumentos, gosto de ouvir as tuas palavras e saboreá-las qual sumo açucarado de romã, gosto de sentir o rasgar da tua boca quando tocas a minha e me fazes pensar que se o mundo acabasse agora eu estaria feliz. Gosto tanto de ti! Gosto tanto de ti que por vezes só de pensá-lo fico com a nostalgia de querer que nunca acabe, que, apesar da não eternidade deste mundo, eu queria uma eternidade só para mim, só para nós, onde nos continuássemos a olhar e a tocar com toda a vontade com que sempre o fazemos. E guardo em mim o teu riso, a tua expressão de prazer, a melodia da tua voz para que não esqueça nunca o que significas para mim; e se um dia me pedirem que descreva como é, não saberei simplesmente fazê-lo, porque ainda não inventaram as letras, que todas juntas, o possam explicar.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Cinquenta e Nove

Passou depressa o tempo...cresceu a vontade de te abraçar, de te tocar com a alma mas também com o corpo. Do fundo da rua vê-se o sorriso que esboço quando te olho com atenção, quando te toco com o olhar que lentamente penetra em ti e que mostra tudo o que me fazes sentir de cada vez que te chegas a mim. Há coisas que não consigo explicar, não obstante o meu pragmatismo, que idealmente julgo conseguir alimentar de todas as vezes que me deparo com a surpresa de algo de que não estava à espera. E as ondas de calor que fazem a roupa colar-se ao meu corpo juntam-se com as folhas secas que evoaçam pelo ar sempre que a brisa da tarde me trás o teu cheiro, o teu riso...

A velocidade não pode simplesmente ser medida em palavras, em afirmações simples, daquelas que nos atordoam os sentidos...pagamos com a língua mais cedo ou mais tarde. Paguei com prazer este preço, com todo o prazer que não posso justificar, porque há coisas que não se justificam. Não são as palavras que nos alimentam o coração nem a alma... Eu, alimento-me de gestos, do toque da tua mão, da tua pele colada à minha, do teu riso colado ao meu, do som da tua voz quando diz que gosta de mim...e daqui até às nuvens é um instante.

Na verdade é tudo tão efémero, tão rápido, tudo se torna passado com tanta rapidez que mais vale agir do que ficar à espera que algo aconteça, ou tão simplesmente ficar a tecer todas e mais algumas considerações sobre o que é e o que não é.
Somos aquilo que somos e mais nada. Vivemos e devemos sempre viver de acordo com o que sentimos, tendo a coragem para enfrentá-lo e assumindo as consequências das atitudes que tomamos. temos que simplesmente aproveitar a vida e todos os momentos que ela nos dá e ser felizes, porque de outra forma nada fez sentido.

domingo, 27 de junho de 2010

Cinquenta e Oito

Escutamos as palavras sem nada que as possam explicar. Os sons que pouco a pouco penetram na nossa alma, desenham com raiados de luz, sentimentos incontornáveis que simplesmente não conseguimos definir. Foi assim que te conheci. Num entardecer, perdido entre a luz solar que ia desaparecendo atrás das nuvens, entre o raiar de uma lua que chegou prematura. Não havia expectativas, havia apenas um sinal que resolvi não querer interpretar. Segui apenas a emoção que se assemelhava com a vontade inequívoca que conhecer a face atrás da voz que me fazia perder os sentidos de cada vez que susurrava aos meus ouvidos. Nunca nada é igual a si mesmo na perturbação dos sonhos, na perturbação daquilo que se espera, daquilo que não se imagina ou que tão simplesmente se pensou que fosse. Surpresas atípicas, rápidas. Químicas inexplicávieis que me seguem incontornavalmente sempre que tento estabelecer algo de mais objectivo.

Sou rapidamente atordada nos meus sentidos pelas sensações mais escassas, mais fortes, mais basicamente carnais, e aceito sem contestação algo que sempre me deixou apreensiva. Não há explicações lógicas para o que sentimos nem para o que vemos quando simplesmente algo nos turva o olhar, mas entementes, emitimos gemidos de dissabores, daqueles que não conseguimos controlar, que nos sugam a energia e nos carregam a mente com dúvidas tão existênciais que até podemos duvidar da verdade dos factos.

Tudo nos parece um tanto ou quanto inócuo, fugaz, rápido, mas também nos parece profundo, assim, do nada, sem mais nem porquê, do que não sabemos quando menos esperamos...depois de caminhadas longas e esquecidas as dores das curvas do caminho que continuamos a percorrer com toda a vida que carregamos dentro de nós.
Não é idade que nos transforma, são as vivências, não são as vivências que nos delimitam, são as sensações que acabamos por sentir...mais cedo, mais tarde, pela razão ou pela emoção, damos passos complexos sem aparente nexo, sem regra básica de escrita, de redacção. São sofríveis, pomos sempre a razão à frente do coração, na tentativa vã de nos protergermos e quando de repente os acontecimentos se perdem do racional nos atropelam a alma, ou tão simplesmente pelo que zelamos, perdemos o rumo ou achamos que tudo tem que ter um propósito. E este propósito carrega-nos a alma quando percebemos que mais uma tarefa se nos apresenta pela frente, com muito ou pouco tempo, não interessa! Isso cansa-nos o físico cansa-nos a alma, ivade-nos no refúgio onde nos gostaríamos de estar protegidos, naquele onde nos reservamos por vezes do resto do mundo mas que nestas alturas simplesmente de nada nos é capaz de salvar.

E as vozes que ouvimos dentro de nós, os anjos e demónios que nos desafiam qual força da gravidade, moldam as nossas acções...lembram-nos a nossa infância quando tínhamos que escolher a brincadeira seguinte...aqui passas-se o mesmo, só temos que escolher qual o caminho a seguir, e isso, na facilidade que tem, determina claramente os passos em vão que podemos dar ou os contrutivos que podemos simplesmente nunca vir a caminhar.

E os sonhos fazem-se disso, fazem-se das coisas inacabadas que um dia tentámos, fazem-se daquilo que nunca efectivámos, por medo, por preconceito ou simplesmente porque a oportunidade fugiu...e assim, num ápice temos novamente o mundo nas mãos sem saber o que fazer dele...

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Cinquenta e Sete

Dedilhando as teclas, ecoam tantas coisas diferentes na minha cabeça...ecoa a vontade de chamar a verdade até mim, de deixar de lado todas as ilusões que têm composto os estados de alma em que me encontro todos os dias em que simplesmente não me reconheço. São poucos, têm sido absolutamente poucos os dias, as horas em que nao sei quem sou, o que faço ou para onde me dirijo. Sinto a minha vida constantemente atordoada com os altos e baixos do que me torna em vida prolongada, no que me torna feliz, nos momentos que me enchem o coração de tal energia que não consigo explicar, nem palavras há que o reflictam. Posso escrever dez, cem, mil palavras, mas nem todas juntas poderiam realmente dar a entender o que vai no meu coração quando rasgo um sorriso e o sinto com toda a força dentro de mim. É assim quando encontro as almas que são tão gémeas do meu ser quanto dois embriões na barriga de sua mãe, é tanto assim como quando estamos enroscados no abraço de alguém que desinteressadamente gosta de nós, assim, sem mais nada, que apenas aprecia aquilo que somos, como pessoa, como individuo, como único.

Foi assim que me senti quando encontro ao fim de não sei quantos anos o abraço de alguém que um dia foi irmão, amigo, companheiro por cinco, por dez, por mais anos. E quando, com o desinteresse de que falo me abraça, sinto que somos mesmo assim, amigos de longa data, para o bom e para o menos bom, porque os verdadeiros amigos e os sentimentos que nos unem não se esquecem, não se esqucem porque ficam sempre marcas. Somos iguais, somos o mesmo, somos a força de ser aquilo que sempre fomos, o que acreditamos, somos sempre o que achamos que devemos ser. Eu sou assim, sou aquilo em que acredito, e cada vez mais sinto necessidade de o ser, sem máscaras, sem nada que me encubra. Sou assim e pronto, e sei que aqueles que me rodeiam, o fazem por gostarem de mim assim, e isso, e isso é que é realmente importante.

Voltamos ao que somos, voltamos sempre à nossa essência, mais cedo, um pouco mais tarde, voltamos sempre lá para recordar, aos recônditos cantos do que nos fez homem e mulher, para beber na fonte a energia que nos tonifica a alma e nos torna mais fortes, mais donos de nós mesmos, loucos, livres, fiéis às nossas convicções, inabaláveis na maneira de ser. Somos assim, fortes e belos, como tudo o que é verdadeiro. E acreditando nesta verdade, sempre e só nesta e nunca em nenhuma outra, devemos perseguir o nosso futuro.

Sou aquilo em que acredito porque de outra maneira não saberia viver.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Cinquenta e Seis

Relembro sim, todos os momentos que marcaram a fase da descoberta, do desalinho que em turbilhão inundava as nossas vidas. Ainda sinto o cheiro das histórias que bordaram a adolescência revestida de risos extemporâneos e de frases desconexas , de palavras cruzadas, de olhares de soslaio que queriam dizer tudo e que eram ao mesmo tempo nada, apenas a expressão da felicidade ou da lágrima que de vez quando rolava, que molhava a face de quem tudo esperava de uma vida eterna e feliz. E os sonhos iam acumulando as experiências que nos envolviam a alma, que nos preenchiam as lacunas deixadas pelos tempos mortos em que pensávamos ter o mundo nas mãos, em que dominávamos a vida como quem rebola na relva fresca, com a inocência de quem sente tudo pela primeira e única vez, porque a primeira nunca se esquece e nunca outra se sente de igual forma.

Há momentos no presente que trazem à lembrança aquilo que no fundo nunca esquecemos, que está sempre guardado na memória de quem viveu intensamente o que tinha que ser vivido, que gritou ao mundo a vida, que celebrou com todos os sonhos a felicidade de saber e saborear o que a terra tem para nos oferecer, o que os amigos têm para nos dar, o que temos nós para dar aos outros.

Não tenho sempre palavras que possam descrever o turbilhão que sinto, esta mixagem de sentidos que sempre me enaltecem e me fazem ser feliz pela vida que levei, pelas pessoas que amei, que ensinei, que escutei...por tudo o que intensamente sempre vivi e que por isso recordo sempre com amor... Passaram já tantas pessoas por mim, pelas minhas lembranças, pela minha memória....houve quem ficasse, houve quem partisse...houve quem partisse para nunca mais voltar. Na verdade não sinto a sua falta mas por vezes bate uma saudade, um nó na garganta por saber que a sua passagem por este mundo já se foi, que a sua tarefa se cumpriu ainda que não saibamos ou tão simplesmente não queiramos perceber qual foi. Julgámos e ainda julgamos que havia tanto caminho por percorrer, mesmo que esse caminho fosse distinto do nosso... e ainda que não sinta a sua falta, dou por mim, de vez em qaundo a escutar a sua voz, a ouvir o seu riso, as suas palavras, os seus devaneios, e irrompo em choro mudo, calado, daquele que não se escuta e que apenas faz doer o coração. É o expurgar do que guardo só para mim, de vez em quando também precisamos de fazê-lo.

E depois, limpamos as lágrimas, encolhemos o soluço e continuamos em frente, porque nós ainda cá estamos, ainda percorremos este caminho, ainda temos a esperança de o ver continuar. Temos a obrigação de ser felizes, por nós e por todos aqueles que amámos e que nos amaram que de que uma forma ou de outra partiram sem perceber porquê!

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Cinquenta e Cinco

Ainda Cinquenta e Cinco e tanta coisa já dita, outras tantas já faladas, sentidas....este números não dizem nada, nem sabem falar...aqui se diz o que me apetece, aquilo que quero, o que não digo a mais ninguém. Quem me segue sabe que sou eu, e quem apenas me lê, saberá? Saberá que vivo todos os dias na imensidão do sol, apanhando aqui e acolá o calor que não lhe importa dispensar-me? Saberá que me corre nas veias a energia do chá que bebo durante a noite, quando o calor se vai em embora e me deixa na penumbra e no frio que me provoca? Saberá que nos instantes imediatos ao soluço que choro em segredo desejo que volte, essa mão que me segura a alma de todas as vezes que não tenho forças para o fazer sozinha? Saberão os desígnios, que por mais que pareça lutar esta angústia não desaparece, não se transforma em nada...aquele nada que estou cansada de sentir? Sentirá, assim como eu, a brisa de todas as entrelinhas que devassam os meus pensamentos como quando não sabia o que era? Mas agora que sei, que sinto e vivo assim, sabendo que existe, porque não vem até mim para me aconchegar todas as vezes que me deito, todas as vezes em que solto o riso sincero de quem vive intensamente cada momento que por mim passa? Não sabe, claro que não, como poderia...

E passam os segundos num relógio que há muito deixou de girar, passam os minutos e as horas infinitas em que espero sempre sorrindo que o vento mude de direcção e me toque com um sopro, com a acalmia com que remexe os meus cabelos e os faz ondular desinteressadamente...passam as horas que gostaria serem eternas, ou talvez não, porque na mão cheia de nada que todos os dias trago não encontro lugar para as ocupar, apenas no vazio balanço a melodia que o meu coração toca quando pulsa dentro do meu peito...

E esta espera infame consome o meu sorriso, leva a minha alma a vaguear por entre os momentos que relembro...não há sorte assim, nem azar disfarçado para todo o sempre. Somo todas as letras que conheço e divido pela palavras que aprendi, invento mil combinações na esperança de encontrar a que sei que vou reconhecer como minha....

terça-feira, 30 de março de 2010

Cinquenta e Quatro

E fico assim, presa entre o agora e o depois, incerto, solto entre as palavras que escrevo sempre que a minha alma precisa falar. Expressa sempre o que sente e o que vê pelas pontas dos dedos que compactam em semânticas complexas o que vai no coração de quem efectivamente ferve com os sons que escuta nas bocas alheias, e nas que lê nos olhos dos demais corpos que se movem em sua volta. E regressa sempre tudo ao princípio do vazio, aquele que não se preenche com as vozes que conhece, que deseja urgentemente viver das vozes que trazem a novidade, a expectativa, o desejo....que manifestem uma triologia completamente ditinta da que até então conhece, que encarne o corpo que deambula neste momento na terra que teima em aquecer com os pequenos raios de sol, qual faúlhas que trespassam a rede que separa a realidade do que é imaginário.

Em vibratos constantes, os olhos deabulam pela impotência que se controla para não explodir na falta perene da metáfora que procura...é verdade que às vezes doí, também é verdade que outras não magoa tanto assim, que olhamos para dentro de nós quando nos reflectimos no espelho ou tão simplemente quando sentimos as nossas próprias mãos, a nossa face, e sorrimos confortados com o simples facto de sermos nós mesmos, aquilo que gostamos de ser....nem mais, nem menos, apenas aquilo que nos faz sentir completos, necessários, úteis....e é esta a força que nos impele e nos faz querer continuar a seguir em frente, que nos apara os golpes que nos guia pelo caminho mais fácil, ou pelo mais díficil...mas é a força que nos faz ter a coragem de escolher, de ter opção, a opção de rir, de chorar, ou tão simplesmente de sentir.

E nestes encantamentos mundanos em que tornámos a nossa forma de estar e viver, esperamos no abreviar de um momento a explosão para a felicidade suprema, a que nos alimentará e aquietará a alma, mas sobretudo o coração.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Cinquenta e Três

E sempre se espera o que se guarda para mais tarde, sonha-se com amanhã, o dia depois de hoje, aquele que nos parece melhor, mais calmo, mais feliz. Violentamente incógnito na minha mente, continuo sem entender como e porquê, porque razão simplesmente não funciona, não desenvolve, não envolve, não muda. O luto fez-se, tenho a certeza absoluta que se fez...fez-se dos passados que demoraram mais tempo do que deviam a ser efectivamente passado, fez-se ao custo de uma lágrima, duas talvez mas não mais do que isso, porque na verdade nada havia mais para chorar. Há muito tempo que tinha ficado para trás, há muito tempo que tinha deixado de contar, de fazer sentir a vibração que percorre a pele e nos estampar na face o sorriso do contentamento. Há muito que tinha deixado de ser...

Balançando o corpo sempre ao ritmo do que nos faz tremer o coração e nos embevece a alma, terminamos a poesia que escrevemos com as palavras apressadamente inventadas, assim, no repentino amanhecer, perdido no encontro entre amantes, pousado no beijo que esquecidamente nos atordoa e nos promete algo mais, mesmo quando esse mais apenas flutua qual floco de algodão vindo não se percebe bem de onde e nos encontra na curva do cabelo, no regaço que deixou de acolher o passado que tantas vezes o preencheu.

Não envelhece a jovialidade quem sempre a tem...não deixa de ser aquilo que sempre foi, e nos entretantos, nos bocados que se espalham entre as vozes que entoam na madrugada os desejos que na claridade não fazem sentido, espera-se pelo desfecho da história prometida, da história simplesmente desejada, cujos personagens ainda não foram inventados. E é nesta mágoa que circulam os meus pensamentos, na indisponibilidade das estrelas em me seguir, por caminhos tortuosos, ou tão simplesmente inóspitos, assim sem mais nada, à espera de um recomeço, tão apenas e só, um recomeço!

Mas de noite, no dobrar da esquina que preversamente me irrita, ainda olho o céu negro e espesso a contemplar as estrelas...

domingo, 31 de janeiro de 2010

Cinquenta e Dois

Deito a cabeça na almofada de cada vez que me apetece hibernar. Suspiro de cada vez que penso no que não senti, no que simplesmente não aconteceu, no que esperei demasiado tempo para viver. Não vieste ao meu encontro, os teus olhos deixaram de me seguir, de me acariciar o cabelo como em tempos sei que fizeste, e as tuas mãos deixaram de procurar as minhas pelo meio da multidão que sempre se acotovela entre um passo e outro. E às vezes terminam assim as histórias que sequer começam, termina o que alimenta o nosso imaginário durante algum tempo, que nos faz tantas vezes vibrar como se de facto a nossa estrutura emocional insanamente se abalasse ao mais pequeno sinal. E as interpretações destes sinais misturam-se, turvam-se em nós, e quando nada nos dizem finalmente, é tempo de seguir em frente, de passar a uma próxima etapa que não sabemos nem quando há-de começar e muito menos quando há-de acabar. Mas isso não interessa, não se reveste de significado para os nossos pensamentos que puramente filtram o que verdadeiramente nos preenche.

Soletramos tantas palavras, assim, letra a letra, mas tão poucas vezes sentimos o que realmente querem dizer. Atribuimos-lhes sentidos, sempre à luz do que vivemos, do que já foi a nossa experiência e nunca conseguimos perceber verdadeiramente o seu significado...o certo, o que descompromentidamente nos ensina e revela o poder do que é dito e nunca só da intenção com que o fazemos. É nesta dança de palavras que percebo o caminho que ainda falta precorrer, o que tenho ainda para conhecer, apreciar, meditar, construir...entro neste caminho, longo bem sei, com vontade e esperança de percorrê-lo com a acalmia que não me caracteriza. Sou ser humano, estou começado, ainda não acabado. Estou aberta, e sei que apta a todas as transformações que virão, quero recebê-las assim, de coração aberto, com a mesma anuência com que recebo o dia-a-dia que me compõe. E gosto desta composição, gosto de tudo o que é diferente, e aceito, sem indiferença tudo o que sei ser igual, mundano, tudo o que vejo repetidamente repetir-se, mas espero sempre, todos os dias e mais um, por todas as diferenças que prefiro, confesso, passem na minha vida.

É opcional esta maneira de sentir, mas eu sei que sempre optei por ele como o ar que respiro todos os dias, não apenas para ser diferente, mas porque aprendo sempre muito mais assim.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Cinquenta e Um

Gosto de ler as pessoas. Leio-as tão simplesmente quando lhes falo, quando lhes escrevo, quando leio as sua respostas ou tão prontamente as oiço comentar a vida. É nestas leituras que diariamente faço, assim que saio do casulo que me acolhe todos os dias, que descubro as semelhanças de todos os que me rodeiam, os medos, as expectativas, os comportamentos mais ou menos irregulares...os desejos. Não me identifico naturalmente com todos, mas, há coisas e palavras que me entram directamnete na mente para de lá simplesmente nunca mais sairem. Há sorrisos que me derretem o coração, que fazem pulsar o sangue ans veias com mais intensidade, olhares que me despem de sentido, que me acolhem os desejos e me fazem soletrar brandamente os suspiros daquilo que me consola. Fico desnudada em cada canto da sala, do corredor, do bar, da rua, da casa, da soleira da porta que se abre quando tento entrar no teu universo. Fico insana, quando tento pensar nas soluções que gostaria de ter e não tenho, na coragem que ando a ganhar mas que ainda não tive, no passo em frente que quero dar mas que ainda não dei.

Há esferas que me acordam em sobressalto, na ternura dos olhos que se debruçam em minha pele, sem me tocarem, sem me maltratarem como faz a cópia de segurança que existe tua, eclipsada na minha cabeça, e que repete todos os dias que amanhã será o dia. Mas este amanhã nunca chega, e passa um dia, passa outro, um terceiro, e tantos mais que já lhes perdi a conta, e nada acontece, nada se perdeu porque simplesmente nada tive, mas também não se transformou.

Às vezes oiço vozes, oiço as vozes dos outros que me sugerem caminhos, oiço a minha própria voz que faz de anjo e diabo, e me baralha todos os dias. Vivo nesta baralhação constante, alheada de tudo...talvez não, na verdade alheada de nada, que tudo o que quero o sei, mas nem sempre o sinto. Vês, neste momento não te sinto, nem a ti nem a nenhum outro pensamento, não tenho como pescar, tiraram-me toda a linha que tinha, e na verdade, não sei bem em que loja comprar mais, a que uso já não se fabrica. E dos risos saem lágrimas, e das lágrimas sai dor...e nesta dor mundana, não constante mas permanente, soletro todos os dias quando acordo, que o caminho se há-de fazer, que se há-de aprontar para me conhecer e virá ao meu encontro para me puxar de novo para a corrida de que tenho tantas saudades.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Cinquenta

Há ciclos a fecharem-se, e outros, renovados a começar. Fecha-se, nesta quinquagésima partitura, o modus vivendi do que conheci na última década como sendo o caminho previsivel a percorrer. Caminhei assim, de forma mais ou menos prevista, segundo os mandamentos que eu mesma criei para silenciar o história que não sabia como escrever, e cheguei ao seu final. Neste fim de linha, recomeço numa outra esfera, assim o desejo, assim o quero, com novos mandamentos, aqueles que ainda não conheço, os que não criei, aqueles que simplesmente quero como imprevisíveis. Termina uma década com muitos momentos que merecem ser apontados como particularmente desejados, outros tantos que passaram por mim como vicissitudes de um destino que apenas e só às vezes temos a sorte de comandar. Nesta altura, tenho a certeza porém, que os desígnios que não quero que voltem a repetir -se estão completamente afastados do espectro do que quero seguir a partir deste primeiro dia, deste novo ciclo que quero que seja o primeiro do resto de uma história que se escreverá por sim mesma em papel de timbre diferente!

Neste vaivém de ilusões, subsiste a de ser compensada pelo esforço moral e imoral da vivência neste mundo que gira e torna a girar em torno das expectaivas que não quero defraudar, porque o jogo continua e as minhas apostas estão para ser ganhas.... As apostas não estão ainda feitas, também a roleta ainda não começou a girar, começo a mover as peças do tabuleiro que agora se constitui novo trilho, e sem fim previsto para já, aguardo pelas coordenadas certas para o que o verde afirma ser de esperança. Podemos trocar as cores do arco-íris, mas não podemos trocar a cor que nos veda o olhar e nos tráz sempre para a rua com vontade de dançar. Com peças soltas se faz um puzzle, e é com emoções soltas que se faz a minha forma de viver.

Simples, louca e feliz...fugaz talvez, inconstante sempre...feliz, porque não?